Hoje é o dia da TV, o veículo mais forte de comunicação que temos. Obviamente, a internet, que é bem mais nova - década de 90, tem um desempenho tecnólogico bem complexo e um futuro mais promissor. A televisão continua fazendo o que faz desde o início: transmitir imagens em ação, com som. Entretanto, a Tv é muito popular, e aí que reside sua força. Quase todas as casas possuem seu(s) aparelhos(s), sejam elas de famílias ricas ou pobres. É o veículo da passividade. A internet é muito dinâmica, e muito rica, pois oferce múltimplas leituras e, para isso, exije uma postura dos seus usuários: é preciso saber o que se quer, ir atrás, pesquisar. Já a televisão é mais limitada. Tomemos a TV aberta como exemplo: uma rede de canais com uma programação pré-estabelecida. O telespectador sabe o que lhe aguarda. A novela, o futebol ou as notícias: é simplesmente parar na frente do televisor e assistir.
Há quem diga que a TV idiotiza as pessoas. Ou então, que a internet em excesso idiotiza as pessoas. Isso é falso. Como todo veículo de comunicação - jornal, internet, revista - a televisão é um meio de divulgar informações e tantas outras funções. Há quem utilize a TV para fins pouco interessantes: programas sensacionalistas, propagandas que fogem do bom-senso. Mas nem por isso deve ser tratada como um meio negativo. Há muita coisa boa sendo transmitida pela Tv. A internet depende dos computadores, celulares e notebooks, máquinas frágeis se comparadas com os resistentes televisores. Antes de formar discursos preconceituosos sobre a Tv, precisamos lembrar que o importante é ter senso crítico, para filtrar o que o veículo TV tem a nos oferecer. E isso vale para todas as mídias: impressas e visuais. A TV fala pela linguagem da imagem, uma linguagem própria, bem diversa da linguagem oral. É da escritora infanto-juvenil Ana Maria Machado uma frase muito interessante: "Uma imagem fala mais do que mil palavras. Vejam essa frase. Você não consegue falar ela através de uma imagem". Ana Maria Machado faz referência a uma eterna polêmica, sobre a idéia de que a televisão tem tomado espaços de outras formas de expressão, e por conseguinte, promovendo a "idiotização" das pessoas. Dizem que ninguém mais lê: culpa da televisão. Não é isso. A linguagem visual, como bem disse a autora, não pode substituir a linguagem das palavras sempre. As imagens falam? Sim. O bom cinema, a boa pintura, a boa fotografia, a boa ilustração e o bom teatro estão aí para comprovar isso. No entanto, vemos que outra arte, a literatura, fazendo o uso somente de palavras, alcança resultados de expressão tão ricos quanto as artes que fazem uso de imagens. São linguagens diferentes, com objetivos comunicativos distintos. Entender isso é fundamental para criar um senso crítico perante as mídias, tornando-as nossas aliadas, e não "veículos de manipulação", como costuma dizer.
Vejo que me desvio do objetivo principal. Não falei muito dos defeitos da TV, nem de suas qualidades. Mas tudo bem, basta sabermos que dificilmente a sociedade (ocidental, principalmente) estaria no ritmo em que hoje está, se não tivesse contado nessas últimas décadas com as imagens e sons dos televisores.
Um parabéns para a TV.
=D
terça-feira, 11 de agosto de 2009
domingo, 9 de agosto de 2009
Pressa pressa
Pressa Pressa, vamos nessa. Depressa depressa, não me estressa. Vai, vai. Café com pão café com pão. Eu preciso ser rápido. É meia-noite. Já estou dentro da segunda-feira. Ó, meu Deus, como o tempo passa. Preciso ser rápido; acabar esse texto. Preciso dormir. Antes, preciso escovar os dentes. Tomar banho. Preciso amar. Mas calma. Vou devagar. Devagar como um louco. Sereno como um assassino puro.
Vida. O que temos feito dela. O que temos feito com ela. O mundo tem girado cada vez mais rápido. Time is money. Hurry is money. Nunca o tempo foi tão contado. E nunca foi tão perdido. Vive-se o amanhã, o dia depois de amanhã. O mês que vem. Financiei minha vida em suaves prestações. Juro? É especial: um pouco de morte vai se somando.
Foi-se a espera. Foi-se a paciência. Jantamos o porvir todas as noites. Jogamos fora todo o nosso hoje. O passado é sempre museu.
A poesia resiste. O erotismo cedeu. Pornografia é o negócio. Mais rápido, depressa, sem enrolação. Time is money. Sex is money. Pra que tirar? já venha sem! Pra que pensar: aja, faça. A noite resiste, O dia insiste. Troca-troca. O dia resiste, a noite insiste. Insônia insônia: dia e noite se comendo.
Insônia, cada vez mais funda. Acorde, levante. Pense. Não pense. O que você deixará para seus netos? Você deixará netos? Você se deixará?. Previdência. Ciência: tudo novo de novo. Pense, repense. Aja, reaja. Corra corra. Morra morra. Tempo, tempo, mas que porra.
Calendário. Despertador. Hora do remédio. Da novela. De lavar a louça. Ano que vem, vou comprar um carro. Vou ter um filho. Hora para escrever. Hora para estudar. Acorde-me às sete. Não se atrase. Em ponto. Daqui a dois anos, serei famoso. Vou ter um carro. Comprar um filho.
Crônometro. Tabelinha. Ampulheta. Sol. Vamos nessa, entre no ritmo. Cada vez mais rápido. Mais rápido. Dane-se a calma, meu chefe é exigente. Esquecer a calma do louco. Abandonar a serenidade: mato e pronto. Rápido, barulhento. Ser normal é correr, ter pressa. Somos felizes. Sim, somos. Formigas loucas, baratas tontas. Vamos vivendo, levando, correndo.
A vida é o passar do tempo: passatempo. A vida no fio. Na fila. Vamos, palavras, vamos que tenho pressa. Quero o amanhã, queremos o depois de amanhã. Infinito mais um. A morte é o brinde. Não tenho tempo. Corte linhas desse texto. Acelere mais fundo. Vai vai, time is time. Amanhã amanhecerei. Mais rápido. Fast-food. Fale mais rápido. Case mais rápido. Cadê meu café? Amanhã faço bodas de prata. Sim, eu serei famoso. Depressa, depressa. Três minutos de acréscimo. Últimos lances. O banco fecha, sempre, às quatro. De quatro. Tire logo essa saia. Follow me. Follow me on twitter. De novo. Mais rápido. Rapidshare. Rapidinha. Vamos, mulher. Seja breve, tenho pressa. Precoce. Ela já tem quinze anos. Estamos em 1999. Cinco, quatro três... três, sim, eu disse três. Três pães, menina! Ande logo! Tenho pressa, meu chefe é exigente. Vamos lá mundo, em sequencia, perfilados, café com pão café com pão. Pressa pressa, vamos nessa.
Pressa pressa eu tenho pressa
Vida. O que temos feito dela. O que temos feito com ela. O mundo tem girado cada vez mais rápido. Time is money. Hurry is money. Nunca o tempo foi tão contado. E nunca foi tão perdido. Vive-se o amanhã, o dia depois de amanhã. O mês que vem. Financiei minha vida em suaves prestações. Juro? É especial: um pouco de morte vai se somando.
Foi-se a espera. Foi-se a paciência. Jantamos o porvir todas as noites. Jogamos fora todo o nosso hoje. O passado é sempre museu.
A poesia resiste. O erotismo cedeu. Pornografia é o negócio. Mais rápido, depressa, sem enrolação. Time is money. Sex is money. Pra que tirar? já venha sem! Pra que pensar: aja, faça. A noite resiste, O dia insiste. Troca-troca. O dia resiste, a noite insiste. Insônia insônia: dia e noite se comendo.
Insônia, cada vez mais funda. Acorde, levante. Pense. Não pense. O que você deixará para seus netos? Você deixará netos? Você se deixará?. Previdência. Ciência: tudo novo de novo. Pense, repense. Aja, reaja. Corra corra. Morra morra. Tempo, tempo, mas que porra.
Calendário. Despertador. Hora do remédio. Da novela. De lavar a louça. Ano que vem, vou comprar um carro. Vou ter um filho. Hora para escrever. Hora para estudar. Acorde-me às sete. Não se atrase. Em ponto. Daqui a dois anos, serei famoso. Vou ter um carro. Comprar um filho.
Crônometro. Tabelinha. Ampulheta. Sol. Vamos nessa, entre no ritmo. Cada vez mais rápido. Mais rápido. Dane-se a calma, meu chefe é exigente. Esquecer a calma do louco. Abandonar a serenidade: mato e pronto. Rápido, barulhento. Ser normal é correr, ter pressa. Somos felizes. Sim, somos. Formigas loucas, baratas tontas. Vamos vivendo, levando, correndo.
A vida é o passar do tempo: passatempo. A vida no fio. Na fila. Vamos, palavras, vamos que tenho pressa. Quero o amanhã, queremos o depois de amanhã. Infinito mais um. A morte é o brinde. Não tenho tempo. Corte linhas desse texto. Acelere mais fundo. Vai vai, time is time. Amanhã amanhecerei. Mais rápido. Fast-food. Fale mais rápido. Case mais rápido. Cadê meu café? Amanhã faço bodas de prata. Sim, eu serei famoso. Depressa, depressa. Três minutos de acréscimo. Últimos lances. O banco fecha, sempre, às quatro. De quatro. Tire logo essa saia. Follow me. Follow me on twitter. De novo. Mais rápido. Rapidshare. Rapidinha. Vamos, mulher. Seja breve, tenho pressa. Precoce. Ela já tem quinze anos. Estamos em 1999. Cinco, quatro três... três, sim, eu disse três. Três pães, menina! Ande logo! Tenho pressa, meu chefe é exigente. Vamos lá mundo, em sequencia, perfilados, café com pão café com pão. Pressa pressa, vamos nessa.
Pressa pressa eu tenho pressa
sábado, 8 de agosto de 2009
Duas vozes


Uma nasceu no estado de Texas, EUA, em 1943; a outra é brasileira, nascida em 1945
Falo de duas cantoras que ficaram gravadas na história da música: Elis Regina e Janis Joplin. Apesar de trabalharem com estilos bem diferentes, há uma grande proximidade entre elas: vozes fortes, marcantes que deram interpretações profundas, intimistas para suas músicas. O que difere essas duas cantoras das demais é a carga sentimental traspareceram em suas canções.
Janis Joplin era muito ligado ao blues, que somado ao folk, formou seu estilo inigualável. São clássicas as suas canções "Mercebes-Benz", "Cry Baby" e "Piece of my Heart". Mas talvez seja a sua versão para um clássico do blues, "Summertime" (letra de George Gershwin), o melhor exemplo para comprovar a genialidade de Janis. Foi genial pois não foi somente voz. Janis soube usá-la, carregando-a de força sentimental, como uma atriz, ou ainda, como se vivesse tudo aquilo que cantava. E talvez tenha vivido. As letras que Janis cantava (algumas suas, outras não) são, em geral, melancólicas, falam da dor, da perda e do tempo. Refletem, assim, a mente conturbada dessa cantora, que faleceu em 1970, aos 27 anos, por complicações geradas pelos vícios em drogas e alcool.
Elis Regina, a Pimentinha, é considerada por muitos - e por mim também (Gal e Bethânia vêm depois, e que se dane) - a maior cantora brasileira. Como Janis, teve uma morte trágica e prematura. Aos 36 anos, morria por overdose. E como Janis, carregou suas canções - outra atriz da música - com uma força de sentimentos incrível.
A trajetória das duas foram muito diferentes, pois os seus estilos eram bem distintos, além de cantarem em países diferentes que, obviamente, possuiam realidades diferentes. Janis produziu somente 4 álbuns, trocando algumas vezes a banda que a acompanhava. Prova da grandeza de Janis, é o fato de que a maioria das pessoas não se recorda que bandas (a última delas doi "Full Tilt Boogie", com quem ela fez o álbun Pearl (1970) lançado postumamente) acompanhavam Janis, e esquecem que nem sempre ela fez carreira-solo, pois o fez somente por certo tempo. Cultivando uma atitude rebelde, Joplin se vestia como os poetas da geração beat, e vivia desregradamente, o que culminaria na sua morte.
Arrastão, Fascinação, Maria Maria, Romaria, O Bêbado e a Equilibrista, Aquarela do Brasil, Águas de março, Retrato em preto e branco, Alô, Alô Marciano, Canção da América, Travessia, Saudosa maloca, Tiro ao Álvaro, Iracema, Aquele Abraço, Como Nossos Pais, As curvas da estrada de Santos. Todas essas, músicas gravadas por Elis. Todas elas sucessos. Como se depreende por essa lista, Elis Regina gravou canções de diferentes compositores e também de diferentes estilos: "Águas de Março" e "Arrastão" são exemplos de parcerias com ícones da Bossa Nova, como Tom Jobim, Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Há ainda gravações de Erasmo e Roberto Carlos, já na música romântica, com "As curvas da estrada de Santos". Ou ainda a pegada "rock" que Elis deu para "Velha Roupa Colorida", de Belchior. Há ainda Adoniram Barbosa, Miltom Nascimento e tantos outros: Elis foi uma cantora múltipla. Sondou muitos estilos e foi feliz em todos, seja ele o rock da Jovem Guarda, o Samba ou a Bossa Nova. Elis começou no rádio e não tardou a se tornar a queridinha dos compositores com seu vozeirão. Acho a voz de Elis Regina tão maravilhosa, que não consigo mais ouvir as versões originais de certas músicas que Elis regravou. Exemplo: Como nossos pais, de Belchior. Belchior é um bom cantor. Mas essa música parece ter sido feita para a voz de Elis. Não só essa. Todas, quem sabe.
Se Janis Joplin fazia o estilo Hippie, Elis Regina não ficava por menos quando o assunto era descontentamento com a realidade: tinha opiniões fortes e sempre se mostrou contra a ditadura militar, principalmente ao cantar suas canções.
Elis, que começou no rádio, logo se tornou uma estrela, ganhando festivais de música e participando de especiais para a televisão. Janis, por seu estilo bem diverso, tinha outro rumo. Com uma carreira conturbada, mesmo com shows prejudicados pelo uso constante de drogas, fez algumas temporadas e participou de festivais, inclusive o histórico festival de Woodstock, em 1969, um ano antes de sua morte.
Janis e Elis: duas vozes marcantes, inigualáveis, que se calaram bem mais cedo do que queríamos.
sábado, 1 de agosto de 2009
Não aos textos apócrifos!
Apócrifo é o texto atribuído¹ a uma pessoa que não o escreveu, ou seja, uma farsa. Geralmente os textos falsos são atribuídos a grandes autores, na esperança de que consiga-se afirmar um texto somente pelo nome de quem o escreveu, e não pela qualidade desses textos. Aliás, a qualidade desses milhares de textos apócrifos que circulam pela internet é, em suma, horrível. Lixo sobre lixo. E fazem de tudo: ora adulteram textos de autores conhecidos, editando suas linhas ou acrescentando outras; ora criam um texto totalmente novo e "botam na conta" do autor famoso. Quanto mais famoso um autor, mais peso (e autoridade) tem para afirmar um texto, assim autores que mais com sofrem esse crime² são os mais conhecidos. E tem de tudo: desde poetas como Fernando Pessoa e Mário Quintana, até cronistas como Arnaldo Jabor e Luís Fernando Veríssimo.
O pior de tudo é que atribuir esses textos aos autores famosos, na esperança de afirmá-los, é algo que funciona! As pessoas passam e repassam e-mail contendo esses textos e não se preocupam em checar se o texto que leem e enviam foram de fato, escritos pelo autor em questão. Eis um exemplo (tirado de minha caixa de e-mail):
'A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.'
Mário Quintana (apócrifo)
POIS BEM... Vamos ao original...eis aí, extraído do livro "Esconderijos do Tempo", publicado pela primeira vez em 1980, pela editora L&PM:
Seiscentos e Sessenta e Seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo...
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
COMO SE PODE NOTAR, o poema teve versos alterados, resultando numa aberração.
O primeiro verso já surge com problemas, que se à primeira vista parecem leves, são graves erros se lembrarmos o quão delicada é a escolha, na poesia, das palavras (e Mário é um poeta maravilhoso que usou-as como poucos). Na poesia uma simples troca pode mudar todo o rumo do texto e até arruiná-lo.
Nesse poema, Quintana fala da passagem do tempo com melancolia, pois fala do quanto nos apegamos à contagem das horas, e não vemos o tempo passar, ou seja, vivemos pouco. Ao final, diz que se tivesse outra chance, outra vida, faria diferente pois não daria ouvidos ao relógio, simplesmente viveria.
Pois bem...nesse primeiro verso adulterado, tem-se " A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.", enquanto no original tem-se "(...)é uns deveres que nós trouxemos (...) em casa." O responsável pela adulteração conseguiu a façanha de, já no primeiro verso, acabar como o texto de Quintana. A escolha de Quintana por um artigo indefinido (uns) sugere imprecisão, incerteza. Enquanto isso, a versão adulterada traz "o dever", com um artigo definido, como se fosse muito clara a ordem e o significado da vida. Ora, se fosse tão clara e certa a vida, o poeta não iria se lamentar de não tê-la vivido tanto como queria! Além disso, o adulterador pôs no singular (dever) o que no original está no plural (deveres), em mais uma clara adulteração.
E os crimes continuam... o verso "Quando se vê, passaram 60 anos..." é trocado de posição e adulterado para "Quando se vê, já passaram-se 50 anos!" Primeiramente, ao trocar para o 50 anos, quebra-se o jogo que Mário propunha com o título Seiscentos e sessenta e seis (o e-mail adulterado nem traz o título), com o uso das marcações de tempo "60 anos", "sexta-feira" e "seis horas". Outro pecado capital está em incluir um ponto de exclamaçõa ao final do verso. Essa efusão sem propósito tira o ritmo do texto, que no original é de desencantamento ante a passagem das horas. Nesse caso, as reticências usadas por Quintana são muito mais enriquecedoras ao texto.
Eu não vou ficar relacionando falta por falta cometida pelo adulterador (nunca saberemos a identidade dessa pessoa, ou até dessas pessoas, já que à medida que são repassados, alguém altera mais um pouco...). Só vou dizer também que no acréscimo (impróprio, obviamente) das duas últimas linhas - "Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais." - está, me parece, a chave para explicar a multiplicação dos textos apócrifos. A pessoa que inclui uma frase seu num texto famoso e o repassa está direta ou indiretamente alimentando o desejo de ter um pensamento seu (uma "criação" sua) com autoridade, para sentir beleza e orgulho de algo que se criou. Aquelas duas últimas linhas transformam o poema de Quintana numa fábula medonha, com uma mensagem óbvia, já que Quintana diz isso e de uma forma bem mais interessante através da sugestão, sem cair no óbvio, deixando ao leitor a missão de extrair do texto as lições sobre o tempo.
Em alguns casos, como crônicas totalmente recriadas-sem uma linha verdadeira sequer- atribuídas a Veríssimo encontraremos pessoas frustradas que se apoiam no bom escritor para disseminar seus testículos, ops, textos. Além disso, esse fenômeno é reflexo do pouco senso crítico dos leitores em geral, que se contentam em ler textos de qualidade mais-que-duvidosa.
Se é triste constatar que os textos apócrifos são amplamente divulgados, mais triste é deduzir disso que as pessoas leem pouco. Se leem pouco, também adquirem pouco senso crítico. Assim, aceitam esses textos com subserviência, e mais do que isso, com prazer (principalmente por que se reconhecem nas mensagens de auto-ajuda frequentes nesses textos). É desalentador.
Por isso, peço a todos que me leem (apesar de saber que posso contar o número dos me leitores numa mão só) que digam não aos textos apócrifos! Que briguem com quem os enviou (responda o e-mail!), pois o apócrifo é a destruição de uma obra de arte.
O conselho é checar. Não repasse e-mails se você não tem certeza da correta procedência do texto, principalmente se o autor em questão é reconhecido.
Até!
NOTAS INÚTEIS:
¹ Lembrando que isso se aplica para qualquer obra, não necessariamente literária. Músicas, por exemplo, são alvos constantes. Exemplo que me vem a memória é a música (música?) "Vampiro Doidão", letra pobre e asquerosa costumeiramente atribuída a Raul Seixas (My God!), genial compositor brasileiro, que nunca pariu um lixo desses.
² A palavra "crime" vai aqui tanto no sentido formal (é ilegal fazer uso dos direitos autorais sem a permissão do autor, exceto se as obras dele já estiverem em domínio público), como também vai no sentido informal, já que adulterar uma obra de autores como Fernando Pessoa é um crime, um pecado, um absurdo sem tamanho.
O pior de tudo é que atribuir esses textos aos autores famosos, na esperança de afirmá-los, é algo que funciona! As pessoas passam e repassam e-mail contendo esses textos e não se preocupam em checar se o texto que leem e enviam foram de fato, escritos pelo autor em questão. Eis um exemplo (tirado de minha caixa de e-mail):
'A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.'
Mário Quintana (apócrifo)
POIS BEM... Vamos ao original...eis aí, extraído do livro "Esconderijos do Tempo", publicado pela primeira vez em 1980, pela editora L&PM:
Seiscentos e Sessenta e Seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas: há tempo...
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
COMO SE PODE NOTAR, o poema teve versos alterados, resultando numa aberração.
O primeiro verso já surge com problemas, que se à primeira vista parecem leves, são graves erros se lembrarmos o quão delicada é a escolha, na poesia, das palavras (e Mário é um poeta maravilhoso que usou-as como poucos). Na poesia uma simples troca pode mudar todo o rumo do texto e até arruiná-lo.
Nesse poema, Quintana fala da passagem do tempo com melancolia, pois fala do quanto nos apegamos à contagem das horas, e não vemos o tempo passar, ou seja, vivemos pouco. Ao final, diz que se tivesse outra chance, outra vida, faria diferente pois não daria ouvidos ao relógio, simplesmente viveria.
Pois bem...nesse primeiro verso adulterado, tem-se " A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.", enquanto no original tem-se "(...)é uns deveres que nós trouxemos (...) em casa." O responsável pela adulteração conseguiu a façanha de, já no primeiro verso, acabar como o texto de Quintana. A escolha de Quintana por um artigo indefinido (uns) sugere imprecisão, incerteza. Enquanto isso, a versão adulterada traz "o dever", com um artigo definido, como se fosse muito clara a ordem e o significado da vida. Ora, se fosse tão clara e certa a vida, o poeta não iria se lamentar de não tê-la vivido tanto como queria! Além disso, o adulterador pôs no singular (dever) o que no original está no plural (deveres), em mais uma clara adulteração.
E os crimes continuam... o verso "Quando se vê, passaram 60 anos..." é trocado de posição e adulterado para "Quando se vê, já passaram-se 50 anos!" Primeiramente, ao trocar para o 50 anos, quebra-se o jogo que Mário propunha com o título Seiscentos e sessenta e seis (o e-mail adulterado nem traz o título), com o uso das marcações de tempo "60 anos", "sexta-feira" e "seis horas". Outro pecado capital está em incluir um ponto de exclamaçõa ao final do verso. Essa efusão sem propósito tira o ritmo do texto, que no original é de desencantamento ante a passagem das horas. Nesse caso, as reticências usadas por Quintana são muito mais enriquecedoras ao texto.
Eu não vou ficar relacionando falta por falta cometida pelo adulterador (nunca saberemos a identidade dessa pessoa, ou até dessas pessoas, já que à medida que são repassados, alguém altera mais um pouco...). Só vou dizer também que no acréscimo (impróprio, obviamente) das duas últimas linhas - "Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais." - está, me parece, a chave para explicar a multiplicação dos textos apócrifos. A pessoa que inclui uma frase seu num texto famoso e o repassa está direta ou indiretamente alimentando o desejo de ter um pensamento seu (uma "criação" sua) com autoridade, para sentir beleza e orgulho de algo que se criou. Aquelas duas últimas linhas transformam o poema de Quintana numa fábula medonha, com uma mensagem óbvia, já que Quintana diz isso e de uma forma bem mais interessante através da sugestão, sem cair no óbvio, deixando ao leitor a missão de extrair do texto as lições sobre o tempo.
Em alguns casos, como crônicas totalmente recriadas-sem uma linha verdadeira sequer- atribuídas a Veríssimo encontraremos pessoas frustradas que se apoiam no bom escritor para disseminar seus testículos, ops, textos. Além disso, esse fenômeno é reflexo do pouco senso crítico dos leitores em geral, que se contentam em ler textos de qualidade mais-que-duvidosa.
Se é triste constatar que os textos apócrifos são amplamente divulgados, mais triste é deduzir disso que as pessoas leem pouco. Se leem pouco, também adquirem pouco senso crítico. Assim, aceitam esses textos com subserviência, e mais do que isso, com prazer (principalmente por que se reconhecem nas mensagens de auto-ajuda frequentes nesses textos). É desalentador.
Por isso, peço a todos que me leem (apesar de saber que posso contar o número dos me leitores numa mão só) que digam não aos textos apócrifos! Que briguem com quem os enviou (responda o e-mail!), pois o apócrifo é a destruição de uma obra de arte.
O conselho é checar. Não repasse e-mails se você não tem certeza da correta procedência do texto, principalmente se o autor em questão é reconhecido.
Até!
NOTAS INÚTEIS:
¹ Lembrando que isso se aplica para qualquer obra, não necessariamente literária. Músicas, por exemplo, são alvos constantes. Exemplo que me vem a memória é a música (música?) "Vampiro Doidão", letra pobre e asquerosa costumeiramente atribuída a Raul Seixas (My God!), genial compositor brasileiro, que nunca pariu um lixo desses.
² A palavra "crime" vai aqui tanto no sentido formal (é ilegal fazer uso dos direitos autorais sem a permissão do autor, exceto se as obras dele já estiverem em domínio público), como também vai no sentido informal, já que adulterar uma obra de autores como Fernando Pessoa é um crime, um pecado, um absurdo sem tamanho.
sábado, 25 de julho de 2009
A poesia de Augusto Frederico Schimidt

Nessas férias, um dos livros que folheei foi "Canto da Noite", do poeta carioca Augusto Frederico Schimidt, que foi publicado em 1934.
Augusto nasceu em 1906. Além de escritor, foi industrial, político, jornalista e editor (é atribuído a ele o lançamento de Graciliano Ramos com seu "Caétes"). Quanto à política, trabalhou para Juscelino Kubitschek. Foi assessor, e era considerado o braço-direito de JK. Entre outras funções, escrevia os discursos do presidente. Foi ele, também, o criador do bordão clássico do programa de governo de JK : "50 anos em 5"
Para os curiosos, há uma biografia romanceada de Schmidt: "Quem contará as pequenas histórias?", escrita por Letícia Mey e Euda Alvim.
Canto da noite é um livro muito fraco. Foi o único livro dele que encontrei na biblioteca da faculdade. Terei que ir à procura de outros. Até vou arriscar a dizer que este é o pior livro desse poeta. Seu primeiro livro, de 1929, "Canto do Brasileiro Augusto Frederico Shimidt", parece melhor.
Voltando aos textos de Canto da Noite, é inegável que seus poemas são muito fracos. O próprio Augusto, já prevendo isso, faz questão de dizer no prefácio da 3ª edição: "Sei o pouco que vale essa coleção de poemas, que só mesmo por fraqueza consinto em reviver para colecionadores de livros de tiragem restrita; sei que este é um livro humilde, que nada tem a ver com ampla e forte poesia que amam hoje (...)"
São poemas escritos com voz baixa, discreta. O ritmo é lento, por vezes arrastado. O ritmo lento acompanha os temas de Schmidt: sempre num tom melancólico e soturno, versa sobre morte, partida e desencanto. Canto da noite está repleto de imagens fracas. Como o título sugere, muitos poemas fazem referência à noite, e são nesses momentos que fica mais nítida a pobreza de estilo do livro.
Mas o livro contém alguns poemas interessantes, em que a melancolia de Schmidt consegue prender o leitor. Como esses dois poemas abaixo "Desejo" e "Despedida"
MOMENTO
Desejo de não ser nem herói e nem poeta
Desejo de não ser senão feliz e calmo.
Desejo das volúpias castas e sem sombra
Dos fins de jantar nas casas burguesas.
Desejo manso das moringas de água fresca
Das flores eternas nos vasos verdes.
Desejo dos filhos crescendo vivos e surpreendentes
Desejo de vestidos de linho azul da esposa amada.
Oh! não as tentaculares investidas para o alto
E o tédio das cidades sacrificadas.
Desejo de integração no cotidiano.
Desejo de passar em silêncio, sem brilho
E desaparecer em Deus – com pouco sofrimento
E com a ternura dos que a vida não maltratou.
DESPEDIDA
Os que seguem os trens onde viajam moças muito doentes com os
[ olhos chorando
Os que se lembram da terra perdida, acordados pelos apitos dos
[ navios
Os que encontram a infância distante numa criança que brinca
Estes entenderão o desespero da minha despedida.
Porque este amor que vai viajar para a última estação da
[ memória
Foi a infância distante, foi a pátria perdida, e a moça que não
[ volta.
E, para fazer justiça, posto um dos meus poemas preferidos, que por sinal, é de autoria de Schmidt. Este poema está no livro "Navio Perdido", de 1929. Possui as características típicas dos textos de Schmidt e, assim como em "Despedida" e "Momento", a voz baixa e fria do poeta cai muito bem nessa imagem de contemplação e reflexão. Aí vai:
LEMBRANÇA
Todos os que estão neste cinema agora,
Neste cinema alegre,
Um dia hão de morrer também:
Nos cabides as roupas dos mortos
penderão tristemente.
Os olhos de todos os que assistem
as fitas agora,
Se fecharão um dia trágica e dolorosamente.
E todos os homens medíocres
se elevarão no mistério doloroso da morte.
Todos um dia partirão —
mesmo os que têm mais apego às coisas do mundo:
Os abastados e risonhos
Os estáveis na vida
Os namorados felizes
As crianças que procuram compreender —
Todos hão de derramar a última lágrima.
No entanto parece que os freqüentadores deste cinema
Estão perfeitamente deslembrados de que terão de morrer
— Porque em toda a sala escura há um grande ritmo de esquecimento e equilíbrio.
Augusto Frederico não está entre os nossos maiores poetas. Mas não deve ser esquecido. Deixou uma bela obra.
Até!
domingo, 19 de julho de 2009
A arte de frequentar sebos
O sebo é aquele lugar onde livros usados são comercializados. Vendem-se, trocam-se e compram-se livros, além de revistas, jornais, CD's, discos e qualquer coisa usada que ainda tenha utilidade. Curioso, fui atrás da origem da palavra sebo. Num blog, encontrei uma explicação bem convincente: "O nome sebo vem do tempo em que não havia ainda energia elétrica e as pessoas liam a luz de velas amarelentas, sujando de gorduras os livros."¹
Para mim, o nome é perfeito. Eu leio em todos (com raras exceções) os lugares e em todos os momentos: no ônibus, andando na rua, na fila do banco, inclusive durante as refeições. Por isso, minha biblioteca está repleta de livros ensebados. Duas vezes ensebados: primeiro por que comprados em sebo, e segundo por terem manchas de gordura, chocolate (e café, então, quase todos!) e outros comes e bebes.
Voltando aos sebos... na minha opinião, frequentar sebos é uma arte. Obviamente, é muito fácil frequentar um: entrar,olhar, folhear livros e comprar, caso tenha vontade. E dinheiro, é claro!
Arte é uma metáfora. Quero dizer que, para um viciado em sebos (e esse blogueiro é um caso típico) há muito mais do que folhear. Visitar um sebo exije muita técnica e perícia, se você está interessando em livros bons e raros.
Abaixo, algumas dicas. (experiência própria!)A primeira delas você já sabe de cor: pedir desconto.
Quanto menos organizado o sebo, melhor. Maior será a chance de você encontrar coisas boas. Coisa boa significa livro bom e barato. Afinal, a maior parte das pessoas querem as coisas à mão, não tem ânimo pra ficar remexendo em pilhas e estantes. Mas não você! Porque você é mais um viciado em livros e não se cansa de vasculhar.
Como se sabe, as pessoas mexem nas prateleiras, e poucas delas arrumam a bagunça que fazem, afinal tem funcionários para fazer isso (humm...que pensamento mais folgado). Por isso, se você está atrás de um bom livro de poesia, não deve restringir sua busca à seção poesia; olhe nas outras também: Psicologia, Medicina, Sociologia, mas principalmente as outras seções literárias, como Contos ou Romances. Nesses é frequente a mistura de gêneros. Por isso, a ordem é vasculhar!
Bem, se você encontra um livro muito interessante, objeto de seu desejo, mas no momento em questão não dispõe de dinheiro suficiente para comprá-lo... não se estresse! Ninguém vai levá-lo antes de você arranjar o dinheiro. Porque você, como sabemos, é um viciado em sebos e sempre dá um jeitinho. E esse jeitinho consiste em esconder o bendito livro. Exemplo: lá está paradinho, digamos, um livro de poemas do Fernando Pessoa. Já que você não tem dinheiro, seja ágil: retire o Fernandinho da estante e coloque-o lááááá.... eu disse láááá longe. Na última prateleira do sebo, naquela mais abandonada. De preferência, escondido entre dois livros volumosos. OU então, bote ele em outra seção.. que tal botar entre os livros de culinária? Assim, quando você voltar com a grana, é só buscar o livro onde deixou. Obviamente, você não pode esquecer onde colocou o bendito. Era só o que faltava! Fazendo tudo certo, a chance de você fazer com sucesso essa "reserva especial" é de 99%. Só 99, pois o outro 1% é para o caso de existir um chefe de cozinha, ou estudante de gastronomia que seja também (nada impede) amante de Fernando Pessoa. Mas aí seria muito azar... pensemos positivo!
Por hoje é só. Em breve mais dicas para os viciados em sebos. Um vício, por sinal, que é bem leve, já que não leva o sujeito à morte como fazem outros tipos de vícios.
Pode levar à pobreza (e como leva!), mas.. fazer o que... é mais forte que nós...
Até!
Notas Inúteis:
¹ Extraído de http://www.portalcostanorte.com/editorias/Geral/68148.html, em 19/07/09 às 19:51 hrs.
Para mim, o nome é perfeito. Eu leio em todos (com raras exceções) os lugares e em todos os momentos: no ônibus, andando na rua, na fila do banco, inclusive durante as refeições. Por isso, minha biblioteca está repleta de livros ensebados. Duas vezes ensebados: primeiro por que comprados em sebo, e segundo por terem manchas de gordura, chocolate (e café, então, quase todos!) e outros comes e bebes.
Voltando aos sebos... na minha opinião, frequentar sebos é uma arte. Obviamente, é muito fácil frequentar um: entrar,olhar, folhear livros e comprar, caso tenha vontade. E dinheiro, é claro!
Arte é uma metáfora. Quero dizer que, para um viciado em sebos (e esse blogueiro é um caso típico) há muito mais do que folhear. Visitar um sebo exije muita técnica e perícia, se você está interessando em livros bons e raros.
Abaixo, algumas dicas. (experiência própria!)A primeira delas você já sabe de cor: pedir desconto.
Quanto menos organizado o sebo, melhor. Maior será a chance de você encontrar coisas boas. Coisa boa significa livro bom e barato. Afinal, a maior parte das pessoas querem as coisas à mão, não tem ânimo pra ficar remexendo em pilhas e estantes. Mas não você! Porque você é mais um viciado em livros e não se cansa de vasculhar.
Como se sabe, as pessoas mexem nas prateleiras, e poucas delas arrumam a bagunça que fazem, afinal tem funcionários para fazer isso (humm...que pensamento mais folgado). Por isso, se você está atrás de um bom livro de poesia, não deve restringir sua busca à seção poesia; olhe nas outras também: Psicologia, Medicina, Sociologia, mas principalmente as outras seções literárias, como Contos ou Romances. Nesses é frequente a mistura de gêneros. Por isso, a ordem é vasculhar!
Bem, se você encontra um livro muito interessante, objeto de seu desejo, mas no momento em questão não dispõe de dinheiro suficiente para comprá-lo... não se estresse! Ninguém vai levá-lo antes de você arranjar o dinheiro. Porque você, como sabemos, é um viciado em sebos e sempre dá um jeitinho. E esse jeitinho consiste em esconder o bendito livro. Exemplo: lá está paradinho, digamos, um livro de poemas do Fernando Pessoa. Já que você não tem dinheiro, seja ágil: retire o Fernandinho da estante e coloque-o lááááá.... eu disse láááá longe. Na última prateleira do sebo, naquela mais abandonada. De preferência, escondido entre dois livros volumosos. OU então, bote ele em outra seção.. que tal botar entre os livros de culinária? Assim, quando você voltar com a grana, é só buscar o livro onde deixou. Obviamente, você não pode esquecer onde colocou o bendito. Era só o que faltava! Fazendo tudo certo, a chance de você fazer com sucesso essa "reserva especial" é de 99%. Só 99, pois o outro 1% é para o caso de existir um chefe de cozinha, ou estudante de gastronomia que seja também (nada impede) amante de Fernando Pessoa. Mas aí seria muito azar... pensemos positivo!
Por hoje é só. Em breve mais dicas para os viciados em sebos. Um vício, por sinal, que é bem leve, já que não leva o sujeito à morte como fazem outros tipos de vícios.
Pode levar à pobreza (e como leva!), mas.. fazer o que... é mais forte que nós...
Até!
Notas Inúteis:
¹ Extraído de http://www.portalcostanorte.com/editorias/Geral/68148.html, em 19/07/09 às 19:51 hrs.
sábado, 18 de julho de 2009
A arte de falar mal
Para começar os trabalhos de forma saborosa, nada como começar praticando um dos exercícios preferidos das pessoas, aquilo que Carlos Heitor Cony chama de "a arte de falar mal". Concordo. Falar mal é uma arte. Fale mal, mas faça com estilo.
Eu já disse em algum lugar, creio que em outro blog meu, que odeio a revista Veja. E odeio mais ainda um de seus colunistas, o tal de Diogo (pausa para a ânsia de vômito) Mainardi. Não entrarei nas famosas polêmicas que giram em torno de sua pessoa. Não falarei do suposto apadrinhamento que o mantém na mídia. Não tenho certeza absoluta de nada, então não posso emitir juízo. Entretanto, por vezes leio (ou tento ler) as colunas do Mainardi. Leio pra dar risada da sua estupidez. O que me irrita nele é sua prepotência. Seu humor não é ácido, nem amargo: é intragável. Como colunista, utiliza sempre as mesmas figuras de linguagem, num pseudo-intelectualismo que me irrita. Falso intelectualismo, pois inoportuno. Tiradas gratuitas que servem somente para Diogo criticar alguém, ao mesmo tempo que se hipervaloriza. Ridículo é pouco.
Da última coluna sua que li - extraindo suas as tiradas trágicas-cômicas - identifiquei uma crítica muito vulgar contra a carreira de romancista de Chico Buarque, que - nas palavras de Mainardi, é "um cantor que se meteu a fazer romances". Chamou-o de autor repetitivo, por repetir motes para seus romances, citando como exemplo, "Benjamim" e "Leite Derramado". (Li o segundo- e gostei muito - mas ainda não li o primeiro).
Bem, o que acho da literatura de Chico é assunto para os próximos posts. Mas já adianto que não o considero um autor exemplar. Está bem longe disso. Entretanto, Chico é um escritor que "se meteu a fazer romances". E aí acrescento: e fez muito bem. A leitura de seus livros é saborosa. Mais que degustáveis, seus livros não estão entre esses exemplares de leitura barata. Talvez seja a relativa "facilidade" de lê-los que leva alguns críticos (e Mainardi é crítico de literatura? haha, faz-me rir!) a taxá-lo como autor ruim. Mas, como disse, falarei mais sobre isso em outras oportunidades. A questão é outra.
Sempre soube da carreira de romancista de Mainardi. E, mais uma vez, nunca emiti qualquer juízo sobre esse seu lado, pois nunca o li. Sei que não posso julgá-lo tendo como base o conhecimento de seu estilo como colunista.
Por isso, decidi há pouco que um dos próximos livros na minha lista será Malthus, livro de Mainardi que recebeu o prêmio Jabuti em 1990 (Meu Deus, será possível?).
Estou cheio de coisas para ler. Livros para a faculdade, livros emprestados por amigos, livros que comprei e que ainda não li, fora os emprestados das bibliotecas da cidade. Mas vou abrir uma brecha para ler Mainardi.
Estou louco para praticar mais a deliciosa arte de falar mal. (ou não, né? vai saber...)
Até!
Eu já disse em algum lugar, creio que em outro blog meu, que odeio a revista Veja. E odeio mais ainda um de seus colunistas, o tal de Diogo (pausa para a ânsia de vômito) Mainardi. Não entrarei nas famosas polêmicas que giram em torno de sua pessoa. Não falarei do suposto apadrinhamento que o mantém na mídia. Não tenho certeza absoluta de nada, então não posso emitir juízo. Entretanto, por vezes leio (ou tento ler) as colunas do Mainardi. Leio pra dar risada da sua estupidez. O que me irrita nele é sua prepotência. Seu humor não é ácido, nem amargo: é intragável. Como colunista, utiliza sempre as mesmas figuras de linguagem, num pseudo-intelectualismo que me irrita. Falso intelectualismo, pois inoportuno. Tiradas gratuitas que servem somente para Diogo criticar alguém, ao mesmo tempo que se hipervaloriza. Ridículo é pouco.
Da última coluna sua que li - extraindo suas as tiradas trágicas-cômicas - identifiquei uma crítica muito vulgar contra a carreira de romancista de Chico Buarque, que - nas palavras de Mainardi, é "um cantor que se meteu a fazer romances". Chamou-o de autor repetitivo, por repetir motes para seus romances, citando como exemplo, "Benjamim" e "Leite Derramado". (Li o segundo- e gostei muito - mas ainda não li o primeiro).
Bem, o que acho da literatura de Chico é assunto para os próximos posts. Mas já adianto que não o considero um autor exemplar. Está bem longe disso. Entretanto, Chico é um escritor que "se meteu a fazer romances". E aí acrescento: e fez muito bem. A leitura de seus livros é saborosa. Mais que degustáveis, seus livros não estão entre esses exemplares de leitura barata. Talvez seja a relativa "facilidade" de lê-los que leva alguns críticos (e Mainardi é crítico de literatura? haha, faz-me rir!) a taxá-lo como autor ruim. Mas, como disse, falarei mais sobre isso em outras oportunidades. A questão é outra.
Sempre soube da carreira de romancista de Mainardi. E, mais uma vez, nunca emiti qualquer juízo sobre esse seu lado, pois nunca o li. Sei que não posso julgá-lo tendo como base o conhecimento de seu estilo como colunista.
Por isso, decidi há pouco que um dos próximos livros na minha lista será Malthus, livro de Mainardi que recebeu o prêmio Jabuti em 1990 (Meu Deus, será possível?).
Estou cheio de coisas para ler. Livros para a faculdade, livros emprestados por amigos, livros que comprei e que ainda não li, fora os emprestados das bibliotecas da cidade. Mas vou abrir uma brecha para ler Mainardi.
Estou louco para praticar mais a deliciosa arte de falar mal. (ou não, né? vai saber...)
Até!
Um blog morre....
Bem, no embalo do poema de E. Dickinson (este aqui ao lado --->) decidi criar esse blog. Pretendo tratar de tudo. Qualquer coisa. O que der na telha. "Sujeito oculto" continuará sendo o depósito da baixa literatura que produzo, bem como "A defesa dos inocentes", continuará com suas postagens bimestrais, trimestrais...em que falo com as paredes do blog.
Espero que esse novo blog seja mais dinâmico que o "Sujeito Oculto" e mais interessante que o "A defesa dos inocentes". Veremos, veremos. Se vingar, é porque deu certo.
Até
Espero que esse novo blog seja mais dinâmico que o "Sujeito Oculto" e mais interessante que o "A defesa dos inocentes". Veremos, veremos. Se vingar, é porque deu certo.
Até
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